Memorial

A trajetória de Mahomed Bamba

Origens e formação

Mahomed Bamba nasceu em Agboville, no sudeste da Costa do Marfim (Côte d’Ivoire), em 23 de dezembro de 1966. Viveu sua infância e adolescência em seu país de origem, mas o destino lhe trouxe ao Brasil, terra que ele tanto amava, onde viveu mais de 20 anos cercado pelos livros e pelos filmes. Um homem de inteligência admirável, que venceu os obstáculos da vida através dos estudos, provando aos outros que com disciplina e determinação podemos alcançar nossos objetivos.

Graduou-se em Letras e Literatura pela Université Nationale d’Abidjan (1989–1992). A relação de Mahomed Bamba com a língua francesa deu-se na infância: como cidadão de um país de língua oficial francesa, ela tornou-se mais que um legado colonial, é parte da cultura sociolinguística de todos os países africanos que foram colonizados pela França. O francês tornou-se a língua do saber e da abertura para o mundo. Antes da sua alfabetização, ele usou esta língua para comunicar-se com outras crianças. Entrou no lycée e optou por uma especialização em Letras, como costuma acontecer no modelo de educação francês. Depois do seu baccalauréat “Série A”, entrou na faculdade de Letras, Artes e Ciências Humanas da Université Nationale d’Abidjan (FLACH), onde cursou estudos literários e de língua estrangeira (espanhol). Durante este curso, aprendeu a língua e sobre a civilização brasileiras, o que permitiu seu interesse pela literatura espanhola e brasileira e o instigou a fazer um trabalho de investigação comparativa entre as duas estruturas das línguas francesa e portuguesa (do Brasil).

Mestrado e doutorado na USP

Foi ao estudar a língua portuguesa que Mahomed Bamba estabeleceu seus primeiros laços com o Brasil, o que o levou a se inscrever, em 1993, no Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG) da Universidade de São Paulo (USP). Lá cursou o mestrado em Linguística Geral e Semiótica pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (1993–1997), defendendo a dissertação “Da interação da língua falada com a língua escrita a outras formas de interação semiótica na geração de texto de legendas de filmes”. No projeto de pesquisa de mestrado analisou as relações intersemióticas entre as variantes de língua escrita e da língua falada no universo fílmico, especificamente na tradução de filmes em legendas. Esse primeiro contato com o campo cinematográfico pelo viés linguístico e da semiótica despertou o interesse de Mahomed Bamba pela pesquisa no universo fílmico. Os conceitos teóricos sobre o cinema interviram de forma parcial e indireta em sua pesquisa de mestrado, mas foi no doutorado que a própria linguagem cinematográfica tornou-se objeto central de sua investigação.

Em 1999 foi convidado pelo SENAC de São Paulo para dar aulas de francês. Essa experiência permitiu-lhe o aprimoramento do seu próprio conhecimento da língua, bem como das questões metodológicas. No SENAC ele pôde fazer uso de seus conhecimentos teóricos em cinema, associando de forma lúdica e instigante o conteúdo do material audiovisual a situações de uso da língua. E foi a partir dessa experiência que surgiu o interesse em estudar profundamente a interação entre o contexto de ensino e aprendizagem e o uso de filmes e material audiovisual, que o levou a desenvolver uma pesquisa sobre a temática.

Entre 1998 e 2002 realizou seu doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, sob a orientação da professora Mariarosaria Fabris. Em sua tese, “O Legível e o Visível no Cinema – O Signo Escrito na Construção e na Leitura Fílmicas”, publicada em 2014 pela editora Appris, Mahomed Bamba afirma: “O objeto principal desse livro é propor, de um lado, uma reflexão teórica geral sobre a importância estética e semiológica da dimensão verbo-icônica na figuração cinematográfica e, por outro, analisar as funções narrativa, discursiva, enunciativa e plástica que completam a exibição de palavras escritas e de diversos tipos de objetos e suportes de comunicação escrita no espaço fílmico.” (BAMBA, 2014)

Docência na Bahia

A vida profissional de Mahomed Bamba como professor de ensino superior começou em 2000, na UNISANTANA e na Universidade Municipal de São Caetano (SP), onde lecionou disciplinas da área de comunicação, como linguagem do rádio, análise de imagem e semiótica.

Em 2003 começou a dedicar-se ao ensino de cinema e audiovisual, quando foi convidado pelo curso de Cinema e Vídeo da Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC, Salvador). Passou a viver em Salvador e lecionou por 4 anos nessa instituição disciplinas ligadas à teoria, história e estética do cinema, do vídeo e da comunicação em geral. Para ele foi uma experiência decisiva, pois o contato com a sala de aula e com os alunos serviu para consolidar os conhecimentos acumulados ao longo dos anos de pós-graduação. Além da FTC, foi professor do Instituto Mantenedor de Ensino Superior da Bahia (IMES, 2003–2006), do Centro Universitário da Bahia (FIB, 2003–2009) e da Faculdade 2 de Julho (2006–2009), onde lecionou disciplinas como Teoria da Comunicação, História da Comunicação e Semiótica Aplicada, buscando relacioná-las com uma atividade analítica voltada para as linguagens midiáticas e dos objetos fílmicos.

Entre 2006 e 2009 foi professor visitante da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), no Departamento de Letras e Artes. Paralelamente à sua atuação na graduação, foi convidado, no primeiro semestre de 2008, a ministrar uma disciplina no Programa de Mestrado em Literatura e Diversidade Cultural: “Estudo Comparado do Orientalismo e do Africanismo no Cinema”. A intenção era relacionar o Orientalismo com o Africanismo, concebendo os dois campos como práticas discursivas e processos de conhecimento “científico”, bem como modalidades de representação visual, pictórica e literária que o Ocidente mantém em relação aos povos do “Oriente” e do sul do Saara. A partir dessas premissas, a disciplina buscava problematizar as relações entre a representação cinematográfica e o orientalismo e africanismo modernos e contemporâneos, e seu corolário, a figuração da alteridade e da diferença no cinema. Mahomed Bamba também ministrou a disciplina de Teoria do Cinema no curso de pós-graduação “Especialização em Cinema: Expressões e Análise” da Universidade Católica de Salvador (UCSAL).

Além de suas atividades docentes, desenvolveu atividades administrativas na UEFS, como coordenador das atividades do NEF (Centro de Estudos Francófonos), que funcionava conjuntamente com o NEC (Núcleo de Estudos Canadenses).

Pesquisa e congressos

Foi membro ativo da SOCINE (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual), da INTERCOM (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) e da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada). Participou regularmente dos encontros e congressos dessas entidades, onde teve a oportunidade de apresentar trabalhos desenvolvidos paralelamente sobre a recepção cinematográfica, o cinema africano e o cinema diaspórico.

Na SOCINE encontrou um espaço privilegiado para expor e discutir o resultado de suas pesquisas sobre cinema e audiovisual, apresentando diversas comunicações com foco na recepção e nas atitudes espectatoriais no cinema. Em 2004 apresentou o trabalho “Proposta para uma abordagem crítica do trailer”. No encontro de 2005, buscou circunscrever os contornos da recepção dos filmes africanos no Brasil, e mais especificamente na Bahia. Partiu do pressuposto de que os filmes africanos, mesmo ausentes das salas de cinema, não deixavam de ser objetos de uma utilização cinéfila nos quatro cantos do mundo. No Festival Pan-Africano de Salvador, observava-se um caso de recepção e leitura cultural e étnica desses filmes. Em 2006 apresentou uma pesquisa ainda em curso na época: “O impacto da conversão linguística na recepção fílmica: entre mediação e apropriação simbólica”.

Na ABRALIC de 2008 submeteu um trabalho sobre as relações entre o campo cinematográfico e o fenômeno migratório, mais especificamente no cinema contemporâneo, “Migrações, imigração e alteridade no cinema contemporâneo”. Em 2007 apresentou uma comunicação sobre literatura e cinema africano no III Encontro de Professores de Literaturas Africanas: Pensando África – crítica, ensino e pesquisa, promovido pela UFRJ, FBN e UFF. No I Encontro Nacional de Estudos da Imagem, em Londrina (PR), apresentou o trabalho “Das imagens sobre a África às imagens da África”, resultado de uma reflexão sobre o cinema africano. O interesse pelo cinema africano encontrou mais espaço de discussão no VI Seminário da Francofonia, organizado pelos Núcleos de Estudos Canadenses e Francófonos da UEFS, onde foi possível discutir o dever de memória nas literaturas e nas cinematografias africanas.

O interesse pelo cinema africano e pela problemática da recepção dos filmes africanos ganhou outra ressonância em sua vida quando aceitou o convite para participar da organização de um livro sobre o “cinema no mundo”. Essa coletânea de 5 volumes tinha como foco temático a indústria, a política e o mercado cinematográfico. Mahomed Bamba elaborou a introdução do primeiro volume (dedicado ao cinema africano) e escreveu o texto “O papel dos festivais na recepção e divulgação dos cinemas africanos”, que também compõe o livro.

Como orientador em cursos de graduação e pós-graduação, procurou sempre orientar os estudantes no sentido de aguçar o senso de observação e de mostrar também a realização de um produto audiovisual, nunca abdicando de uma reflexão teórica sobre o objeto abordado. Quando trabalhou na FTC, liderou um grupo de pesquisa sobre cinema e vídeo, cadastrado no portal de grupos de pesquisa do CNPq. Entre 2005 e 2006 orientou um projeto de iniciação científica sobre “O Cinema nas Práticas do Ensino Médio da Rede Pública do Estado da Bahia”. Orientou projetos de pesquisa no Centro Universitário da FIB e foi orientador e monitor de projetos de pesquisa na UEFS.

A UFBA e os últimos anos

Em 2009 passou em 1º lugar no concurso para professor de Cinema e Audiovisual (Teoria, História e Linguagem do Cinema) da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Tornou-se professor adjunto da Facom/UFBA e pesquisador credenciado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas (PósCom/Facom/UFBA). Foi um dos coordenadores do GRIM (Grupo de Pesquisa em Recepção e Crítica da Imagem) e coordenou o Seminário Temático de Recepção e Espectatorialidade na SOCINE. Publicou artigos sobre a temática da recepção cinematográfica e audiovisual, escreveu capítulos para livros coletivos sobre cinema africano e organizou o livro “A Recepção cinematográfica: teoria e estudos de casos” (EDUFBA, 2013). Foi coorganizador do livro “Filmes da África e da Diáspora: objetos de discursos” (EDUFBA, 2012). Em 2014 fez pós-doutorado nos Estados Unidos, na Michigan State University, com apoio da CAPES, estudando a recepção de filmes africanos em festivais da América do Norte e do Sul.

Na UFBA, atuou no Bacharelado Interdisciplinar em Artes e no curso de Comunicação, lecionando disciplinas como História do Cinema II, Gêneros Cinematográficos, Teoria do Cinema e Narrativas Audiovisuais, e foi membro do colegiado do PósCom, onde orientou pesquisas e ministrou disciplinas no mestrado e no doutorado. Orientou 27 trabalhos acadêmicos entre 2005 e 2015 (4 dissertações de mestrado, 1 monografia de especialização e 21 trabalhos de conclusão de graduação) e participou de dezenas de bancas, entre elas as de 11 teses de doutorado. Em 2011 integrou o GRIM, a convite da professora Regina Gomes, e, em seguida, o Laboratório de Análise Fílmica (LAF), a convite do professor José Francisco Serafim, onde ajudou a abrir espaço para os cinemas africanos e do Sul Global. Entre 2010 e 2014 coordenou o Seminário Temático “Recepção Cinematográfica e Audiovisual: Abordagens Empíricas e Teóricas”, da Socine. Em 2013 naturalizou-se brasileiro e, com seu charmoso sotaque francês, dizia feliz a quem perguntava sua origem: “Eu sou brasileiro e baiano!”.

Em fevereiro de 2015, Mahomed Bamba voltou ao Brasil depois de concluir o pós-doutorado e retomou suas aulas e pesquisas na Faculdade de Comunicação da UFBA. Em maio de 2015, em exames de rotina, deparou-se com um problema de saúde. Os médicos começaram a investigar e, depois de vários exames, chegaram à conclusão de um provável colangiocarcinoma, um tumor nas vias biliares. Durante um procedimento médico necessário, Mahomed sofreu uma infecção que se generalizou e o levou à morte em 12 dias.

No dia 16 de novembro de 2015, às 00h23, na cidade de Salvador, Mahomed Bamba partiu para um plano superior, deixando todos que conviveram com ele órfãos de seu sorriso e de sua alegria. O mundo acadêmico perdeu um expoente nos estudos teóricos do cinema, e nós, que tanto o admirávamos e o amávamos, perdemos um grande amigo e um grande amor.

O legado

Depois de sua morte, o legado de Mahomed Bamba foi lembrado de muitas formas. Em 2016 aconteceram a Semana Mahomed Bamba de Comunicação e a Mostra Especial do CineFacom, na UFBA; a revista Rebeca, da Socine, dedicou-lhe um dossiê sobre as africanidades; e a UFRGS publicou, na revista Semana da África, a comunicação que ele havia autorizado antes de falecer. Em 2017, a revista África(s), da UNEB, organizou um dossiê especial em sua homenagem.

Em 2018 nasceram, em Salvador, dois festivais que continuam acontecendo e homenageiam sua memória: a Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba, idealizada por Daiane Rosário, sua ex-aluna no Bacharelado Interdisciplinar em Artes da UFBA, e a Mostra de Cinemas Africanos, criada por Ana Camila Esteves e Beatriz Leal Riesco, pesquisadoras que conviveram com ele e se conheceram por seu intermédio.

Textos aprovados para publicação, mas ainda inéditos quando ele faleceu, foram publicados postumamente: a tradução para o português de “Reflexión sobre la dimensión espectatorial de las películas africanas…”, na coletânea Cinemas africanos contemporâneos: abordagens críticas (Sesc, 2020), organizada por Ana Camila Esteves e Jusciele Oliveira; e “O cinema independente e político de Haile Gerima: entre descolonização da mente e criação de contranarrativas”, no livro Audiovisualidades contemporâneas (EDUFES, 2023).

Sua biblioteca, com centenas de livros, muitos deles raros, esgotados e nunca publicados no Brasil, sobretudo sobre os cinemas da África, foi doada à Biblioteca Universitária Central Reitor Macedo Costa, da UFBA, onde continua disponível para consulta. Hoje há um número expressivo de trabalhos de graduação, dissertações e teses sobre cinemas africanos no Brasil, e Bamba é reconhecido como um dos precursores desse campo de pesquisa.

Em 17 de setembro de 2025, em sessão solene no Salão Nobre da Reitoria, a Universidade Federal da Bahia outorgou a Mahomed Bamba o título de Professor Emérito (post mortem). No mesmo ano, em que se completaram dez anos de seu falecimento, a Mostra de Cinemas Africanos o homenageou como figura central da edição.

A cronologia e as informações acadêmicas desta página foram atualizadas a partir do Memorial Acadêmico “Mahomed Bamba: um ser transcultural entre África e América” (UFBA, 2024), escrito por Ana Camila Esteves, Jusciele Oliveira, Morgana Gama, Regina Gomes e Sirley de Souza.